A Virada Digital, em Paraty-RJ, é um laboratório. Um projeto iniciante, que deve persisitir até a Copa de 2014, no Brasil. Em 2013, o projeto segue de maneira itinerante, por várias capitais do Brasil.
Neste fim de semana, em Paraty-RJ, foram dados os primeiros passos da Virada Digital. Foram três dias de diversas atividades. Entre empresas, laboratórios universitários, projetos governamentais, coletivos de cultura digital e uma série de outros empreendimentos da área mostrando seus projetos, houve muito diálogo. Para alguns, diversos debates podem ter sido bastante cansativos e morosos, sem muita intensidade ou profundidade, seja técnica ou política.
Entretanto, observando um pouco mais, fica claro que, apesar do perfil empreendor/empresarial do evento, que todas as falas fazem parte de um nivelamento necessário, para captar um pouco mais da massa que veio participar do evento em Paraty. Curiosos, estudantes, convidados e a população local como um todo vieram aos hubs instalados em Paraty para participar, conhecer e interagir com o evento.
Interação é justamente um dos três eixos principais do mesmo: Sustentabilidade, Inovação e Interatividade. Houve demonstrações de grupos científicos e acadêmicos com algumas tecnologias inovadoras(ou não), houve diversas falas sobre cultura digital e internet de modo geral, e uma ou outra ação mais espontânea e/ou intensa. Dentro da programação, as falas mais provocativas aconteceram no painel do sábado, com Luis Perequê, Alfredo Manevy, Sérgio Amadeu, Marcelo Branco, Rodrigo Savazoni, Pablo Capilé e Cláudio Prado, dentro do tema “Paraty Século XXI”.

Havia uma tenda com computadores à disposição da comunidade, com livre acesso à internet. Metade das máquinas rodavam GNU/Linux, outra metade tinha Windows. As crianças foram bastante presentes nesse espaço, brincando e se familiarizando com a tecnologia. Foi um espaço que não ficou vazio e que ainda proporcionou alguns belos debates.
No site oficial do evento, era possível acompanhar as atividades no palco principal do “Hub Estrela” pela internet, em um link de transmissão ao vivo. O problema é que esse palco concentrou as atenções e privilegiou alguns debates que aos olhos mais perceptivos eram muitas vezes demasiado vazios e ultrapassados. Por outro lado, a sensação era de que o público geral parecia sempre interessada e participativa em todas as falas.
Por outro lado, aconteceram eventos mais espontâneos, como a ocupação do Ônibus Hacker, que estacionou ao lado do Hub Estrela com ações práticas e oficinas. Aconteceram oficinas de estêncil, rádios livres, tv pirata, oficina de projetos de lei entre outros. Na programação, um debate precioso e importante como o “Cultura Digital Indígena” ficou em “segundo plano”, no domingo pela manhã, longe do “Hub Estrela.”
Ônibus Hacker
E aí vem alguns questionamentos: é mais importante debater tecnologias ultrapassadas como sensores de movimento corporal, ou discutir a temática da inclusão digital de populações indígenas? Na medida em que os dias passaram ficou claro que o evento é um evento de perfil empresarial e/ou governamental, com uma pitada de provocações e propositismo, que partiu principalmente de alguns convidados e participantes independentes do evento, como a própria Transparência Hacker e o Circuito Fora do Eixo, que engrossaram o caldo com falas mais politizadas, sempre estabelecendo contrapontos importantes.
Em termos estruturais, a Virada Digital prometeu melhorar a internet local e trouxe de fato um cabo de fibra ótica à Paraty, fato louvado pelos próprios moradores locais, como Silvia Miguez, dona do agradabilíssimo restaurante Flor do Rio, que sinalizou positivamente com o evento e com a melhoria da internet. Segundo a organização da Virada, o evento contou com um link de 100MB, e fala-se que seja mantido um link de 50MB para a cidade após o término do evento.
Paraty é uma bela cidade turística que merece um evento desses. Na verdade, o que fica de entendimento é que esse tipo de evento é válido em qualquer cidade carente de tecnologia, inovação, debates e propostas políticas de inclusão, e que merecia ser amplificado e levado a vários lugares.
Se por um lado em capitais e grandes cidades um evento como esse teria uma ocupação claramente maior, em cidades menores e afastadas dos grandes centros urbanos existe uma demanda completamente válida e que deve ser suprida e contemplada. Esse é certamente um dos maiores méritos de um evento desse porte. Que venham as próximas edições, e que possam ser melhores.