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Sexta Feira no Grito Rock – Por Olga Costa

Fotos de Rafael Passos

Nos anos 70 era usado como terapia. Doutor Arthur Janov ficou famoso por isso. Os efeitos foram parar no Plastic Ono Band. O grito eliminava o estorvo e mostrava a necessidade de ser ouvido. Gritamos durante décadas e quase nunca fomos ouvidos. Quem quer ver o que tem aqui? E se ouve rock?


Ainda bem que isso mudou... Um pouco.

Não queríamos a autoria da pedra que rola mundo afora. Queríamos apenas nos divertir.

O tempo passou. Hoje graças a tantos gritos, traduzidos em ações por outros tantos, temos em praça pública uma manifestação musical independente e cultural chamada GRITO ROCK. E graças também ao advento informático, espalha-se por diversas cidades do nosso país e também fora dele.

Nunca imaginamos isso. Não mesmo. Era coisa de filme sci-fi umas três décadas atrás, quando dois mil e um parecia uma data que jamais veríamos chegar.

Sex on the Beach traduz um pouco dessa ficção ao fazer surf music numa cidade onde inexiste litoral. A banda, radicada na cidade de Campina Grande, tem na sua formação, dois guitarristas, ambos de Maceió e o canhoto baixista de Aracajú. Apenas o baterista Tonny é da terra. Diego (um dos guitarristas) disse que a banda reflete os tempos atuais: o cosmopolitismo em todos os lugares. Nossa casa é o universo. Depois de tanto tempo, a grande rede que espalha por todo o planeta, quiçá fora dele também, inúmeras culturas de forma virtual, ainda está longe, muito longe de ser o real.

Já previa Lennon que o mundo seria um só. Ainda existem muitos sonhadores lá fora.

Apesar de ter ouvido apenas as duas músicas finais, a impressão foi arrebatadora: entrosada e despojada foram as primeiras palavras que surgiram entre as notas do mestre Dick Dale (atualmente com 72 anos). Na última música ?? uma adaptação de um clássico grego chamado Misirlou, que quer dizer ??garota egípcia?, a banda incorporou outras canções tradicionais de nossa cultura. Misirlou se popularizou em cinco formas diferentes de estilos musicais ?? era a grande rede tecendo seus primeiros pontos. Diz a lenda que a primeira vez que se tocou essa música foi em 1927. A versão, provavelmente a mais popular, que conheceríamos depois, foi feita pelo Dick Dale em 1962. Sex on the Beach tem um EP imperdível onde todas as músicas são drinks, todos provados e aprovados pela banda, além de uma versão surpreendente de ? Proibido Fumar. Até o agosto, existe a promessa de um CD inteiro. Para quem perdeu ou ainda não conhece, a banda voltará a tocar no Espaço Mundo dia 19 de março.

O grito saiu da praça e entrou para o mundo. O Espaço Mundo recebeu a segunda banda da noite com um publico entusiasmado com o som pesado da Retaliação ?? que conta com Guilherme Borges (Projeto50) na guitarra, uma importante referência local para diversas bandas. A Retaliação tem dois vocalistas e segue, musicalmente, uma vertente californiana que agrega bandas como Tool, Rage Against The Machine e Faith No More.

Seu Pereira e Coletivo 401 são músicos da Chico Correa & Eletronic Band. Falcão até apresentou como Chico Correa e Coletivo 401. Após corrigir o equivoco, o show seguiu com Victor Ramalho na bateria, Thiago ??The Sílvias? no baixo e Esmeraldo na guitarra. O Coletivo percorre referências do passado/presente como Jorge Ben Jor e Gilberto Gil, ainda sob efeito da ditadura em versos disfarçados em Refazenda. O grito do Coletivo carrega um homem-bomba: ??que veio me abraçar/de repente meu corpo no chão/de repente meu corpo no céu/saudades de ti/saudades de Che, de Zappata e Antonio Conselheiro, todos de guerras, todos juntos e embalados numa música só. Seu Pereira e Coletivo 401 é do palco e do mundo. Não poderíamos esperar menos.

Novamente Espaço Mundo, e agora o grito volta aos anos 70, aos ingleses (Led Zeppelin, Deep Purple, Girlschool) e americanos (Jimi Hendrix, Grand Funk Railroad, Runaways), e é proferido por um trio feminino (originalmente). Rayan Lins (Nublado) atua como baterista de apoio, enquanto alguma mulher não se aventurar a substituí-lo nas baquetas. Aliás, uma tarefa árdua: Rayan está tão integrado (apesar de pouco tempo) a Blue Sheep que a baterista seguinte terá que suar muito para chegar perto do que ele faz. Escolheram Foxy Lady e The Ocean (Hendrix e Zeppelin, respectivamente) para completar o ótimo repertório autoral, do qual, infelizmente, só foi lançado duas músicas em CD.

Lembro que ainda na desértica ilha lostiana, por volta de 2006, li uma resenha do Jesuíno André, para o Portal Rock Press, onde ele apresentava a banda Gauche (pronuncia-se ??goxe?). Lembro ainda de ter ficado curiosa para conhecer a banda por conta das palavras ditas no texto. Gauche parecia perdida no palco da praça Antenor. Talvez a sonorização tenha sido o fator principal para a apresentação da Gauche ficar comprometida. Alguns músicos foram uníssonos em dizer que o som de palco estava ruim. Como nunca tinha visto nenhuma apresentação anterior deles, prefiro apagar esse momento e aguardar o próximo. Espero que o grito do Gauche possa ser ouvido depois.

Nos intervalos fiz algumas aquisições providenciais na banca de CDs e afins, comandada por Béa e Eveline.

A noite ainda continuou com outras apresentações que não foram registradas por esses ouvidos. Ao Grito Rock só resta dizer: Longa vida ao Grito! E longa vida ao rock, é claro!

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One Response to “Sexta Feira no Grito Rock – Por Olga Costa”

  1. Laura Morgado Says:

    Lindo!!
    Só fazendo o que realmente se gosta e acredita, pra que o resultado seja assim, FODA.
    Resposta mais do que sincera a toda a inquietação e competência do Coletivo Mundo de não só questionar as estruturas, mas de propor soluções e fazer com que elas aconteçam.
    João Pessoa tá bem representado na rede demais. Vida longa ao Mundo!

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